Apresentação

A LITERATURA DE ANGOLA DESDE OS SEUS PRIMÓRDIOS

AUTOR: Tomás Lima Coelho

Embora a cidade de Mbanza Congo, capital do reino do Congo, não estivesse ainda incluída nos limites fronteiriços da Angola que conhecemos hoje, incluímos ainda assim nesta resenha dois autores oriundos daquela cidade. A primeira obra conhecida de um natural daquele reino é o livro “Gentio de Angola Sufficientemente Instruido Nos Mysterios de Nossa Sancta Fé”, da autoria de António do Couto, um padre jesuíta nascido em Mbanza Kongo em inícios do século XVII, uma adaptação do trabalho “Gentilis Angollae fidei mysteriis … instructus” do jesuíta italiano Francisco Pacconio. Esta obra foi publicada em Lisboa no ano de 1642. Ainda naquele século o frade capuchinho Manuel Reboredo, também natural de Mbanza Congo, filho do nobre português Thomaz Reboredo e de Eva, uma irmã do rei do Congo Mvemba-a-Nkanga Ntinu (D. Álvaro V), foi co-autor do “Dicionário Kikongo-Latim-Espanhol” publicado em 1651.
Mas, tirando o caso destes intelectuais educados nas escolas religiosas, a população nativa era olhada e usada apenas como força de trabalho e só muito poucos, os filhos de uma pequena elite aculturada e europeizada, conseguiam sobressair. Foi o caso de José da Silva Maia Ferreira, homem culto e viajado, filho de um português e de uma senhora de Luanda que, após os estudos concluídos em Portugal e no Brasil, publicou em 1849 aquela que viria a ser a primeira obra literária de um filho do país: “Espontaneidades da minha alma”, um livro de poesia com dedicatória às senhoras da sua terra, mas onde a forma, o estilo e o vocabulário pouco têm de África, de Angola. Alguns anos antes, em 1834, Joaquim António de Carvalho e Menezes tinha publicado em Lisboa o trabalho “Memoria geografica, e politica das possessões portuguezas n’Affrica occidental, que diz respeito aos reinos de Angola, Benguela, e suas dependências”. Este luandense foi o responsável pela primeira tentativa para instalar uma máquina de imprensa em Luanda, em 1842, mas, julga-se que por sabotagem dos interesses estabelecidos em Lisboa, o navio onde vinha a máquina naufragou.
Só após um longo hiato de dezasseis anos, em 1865, um outro angolano, Manuel Alves de Castro Francina publicaria, em co-autoria com o médico brasileiro Saturnino de Souza e Oliveira, aquele que viria a ser o primeiro compêndio para o estudo da língua angolense: “Elementos grammaticaes da lingua Mbundu”. Maior período temporal se passaria, vinte anos, para que João Mantantu Dundulu publicasse em 1885 um “Dicionário Kikongo-Inglês”, sob orientação dos missionários americanos da Sociedade Missionária Baptista (BMS). Seis anos passados, em 1891, um outro filho do país, Joaquim Dias Cordeiro da Matta, viu publicada a sua primeira obra, um livro de poesia intitulado “Delírios”. O livro foi lançado numa época de forte efervescência popular à volta do ultimato britânico sobre a questão do Barotze e do mapa cor-de-rosa, um tempo em que jornalistas e outros literatos polemizavam acesamente nos jornais, revistas e almanaques da colónia, onde já se expunham claramente ideias autonomistas e independentistas. Nomes como Pedro da Paixão Franco, Urbano de Castro, Silvério Ferreira ou Francisco Castelbranco, entre outros, foram muito importantes para a discussão dessas ideias, amplamente difundidas pela imprensa da época, debate que se prolongaria ainda para o século XX.
Mas voltemos aos livros. No ano seguinte, em 1892 portanto, um outro angolano conseguia ver o seu livro publicado, depois de inicialmente o ter feito em folhetins, tanto em jornais de Portugal como em jornais de Angola. Tratava-se de Pedro Félix Machado, estudante em Portugal onde cursou Direito. O seu livro, intitulado “Scenas d’África: ? – Romance íntimo”, já se destaca por conter um forte cariz regional, já é de Angola e dos seus costumes que se fala, ainda que escrito num estilo algo queirosiano, de cunho europeu portanto.
A seca de produção, contudo, continuava, e só treze anos depois, em 1905, Bento Mântua, um luandense que viria a distinguir-se como Presidente do Sport Lisboa e Benfica (1917-1926), publica “Novo Altar”, em Lisboa, uma obra de forte influência maçónica. Quatro anos mais tarde, em 1909, Augusto Thadeu Bastos, o filho de um abastado comerciante da Catumbela, publica “Traços gerais sobre a etnografia do Distrito de Benguela”. Em 1911, o caricaturista e dramaturgo Julião Félix Machado, irmão mais novo do escritor Pedro Félix Machado, escreve no Brasil a comédia dramática “A bandeira”.
Um ano depois, em 1912, Pedro da Paixão Franco publicava em Portugal o seu livro “História de uma traição”, um libelo acusatório contra antigos companheiros, jornalistas como ele, fruto ainda do rescaldo dos debates na imprensa angolana iniciados em finais do século XIX.
Continuando na senda dos grandes hiatos temporais surge, quinze anos depois, em 1927, a primeira obra de Óscar Ribas, um livro intitulado “Nuvens que passam”. Dois anos passados, em 1929, vem a público “História de Angola”, a primeira abordagem do tema sob o olhar de um natural do país: o luandense Alberto de Lemos.
Entramos na década de 30, período em que oito autores conseguem publicar: Manuel Inácio dos Santos Torres, um fervoroso nativista luandense, publica em Portugal “Subsídio para a História do Progresso das Colónias Portuguezas”. Luís Malta publica em 1930 “Rimas ao vento”; Agnelo de Oliveira, em parceria com J. Trindade publica, em 1932, “Os nossos versos”; Francisco Castelbranco, ainda à volta da história, publica, em 1935, “História de Angola: desde o descobrimento até à implantação da República (1482-1910)”. No mesmo ano, António de Assis Júnior estreia-se com o seu “O segredo da morta”. No ano seguinte, em 1936, publica-se o livro “O imposto nas transmissões” de Emílio Simões de Abreu, uma obra de teor técnico ligada às funções do autor na Fazenda Nacional. Um ano depois, em 1937, Geraldo Bessa Victor aparece com “A poesia e a política” e, mais dois anos passados, em 1939, surge Tomaz Kim com a obra poética “Em cada dia se morre”.
A década de 40 abre com bons prenúncios: logo em 1940 o benguelense Ralph Delgado publica “A famosa e histórica Benguela: catálogo dos governadores (1779-1940)”, e Maurício Soares, um descendente de colonos madeirenses, publica “… e Ramiro também ficou”. Ainda em 1940, Domingos José Franque, o nome português de Boma-Zanei-N’Vimba, membro da nobreza do antigo Reino do N’Goio, publica em livro “Nós, os Cabindas: história, leis e costumes dos povos de N’Goio”. Em 1943 chega a vez de Eduardo de Azevedo se estrear com “Vidas rasas”. Em 1944 vem a público uma outra obra, desta vez de uma mulher que será a primeira angolana a publicar um livro: Lília da Fonseca com “Panguila”. No ano seguinte, em 1945, João de Almeida e Sousa “Cachimbinha” publica “Apontamentos de etnografia por africanos: inquérito aos hábitos e costumes do povo adstrito à administração de Nrikinya “, o escultor moçamedense Salvador Barata Feyo publica “A escultura de Alcobaça” e Maria de Figueiredo, outra moçamedense, publica “Eu também sou Português!”. Só no fim deste período, em 1948, três novos títulos surgem: “Silêncio” de Humberto da Sylvan, “O imbondeiro maldito” de Mário Milheiros, outro descendente de colonos madeirenses da Humpata, e do malanjino Alfredo Diogo Júnior publica-se o livro “Angola: a ocupação holandesa e a restauração: factos determinantes”.
Já se revela mais pujante a década de 50, onde os assomos de uma elite literária começam a surgir, reflexo inicial do movimento intelectual “Vamos descobrir Angola!”. Logo em 1950 Manuel Júlio de Mendonça Torres redige “O Distrito de Moçâmedes nas fases da origem e da primeira organização”; em 1953 Mário Pinto de Andrade colige uma “Antologia temática de poesia africana”; no ano seguinte, em 1954, três autores se revelam: o moçamedense Joaquim Pedro Arroja Júnior com “Flores negras”, Maria Joana Couto, a segunda angolana a surgir nas letras, com “Braseiro ardente” e Roberto de Carvalho com “Com a força do tempo”. Em 1955, Eduardo Abreu da Silva Brazão escreve o poema épico “Os Namibelusos”. Em 1956 mais três autores vêm as suas primeiras obras publicadas: Cochat Osório escreve “Calema”, Mário António de Oliveira publica “Poesias” e Roberto Correia edita “Assim somos todos”. Em 1957, vindo também das terras quentes do Namibe, Clodoveu Gil mostra-se com “Temas eternos: poesia” e o médico luandense Fernando Figueira Henriques trás a público o ensaio antropológico “Contribuição para o estudo da fertilidade da mulher indígena no ultramar português”. Em 1958, Eugénio Ferreira, um madeirense a quem viria a ser concedida a nacionalidade angolana, publica “Feiras e presídios” e Antero Francisco de Seabra, nascido nas terras altas da Huíla, estreia-se com a obra “A luta do Ultramar”. Em 1959 o emérito historiador Ilídio do Amaral inicia o seu rico percurso histórico-literário com a publicação de “Subsídios para o estudo da evolução da população de Luanda” e Judite Fernandes Sanches Osório publica Apontamentos de economia doméstica. É ainda nesta década que Voto Neves, um conhecido folclorista luandense, edita um “Dicionário Português-Kimbundo/Kimbundo-Português”.
Mas é na década de 60, e a partir daí, que o apelo do movimento intelectual começa a dar os verdadeiros frutos. Aqui fica a lista dos autores e das suas primeiras obras, onde já despontam nomes importantes da luta contra o colonialismo, por paradoxal que isso possa parecer dada a repressão do regime colonial, ou talvez até por isso mesmo, onde a poesia, a arma literária de resistência por excelência, tem a maior preponderância nas publicações:
1960 – Arnaldo Santos com “Fuga”; Cândido da Velha com “Quero-te intangível, África”; Carlos Alves “Cave” com “O povoamento de Angola”; Costa Andrade com “Terra de acácias rubras”; Henrique Abranches com “Cigarros sujos”; Inácio Rebelo de Andrade com “Um grito na noite”; José Luandino Vieira com “A cidade e a infância”.
1961 – Agostinho Neto com “Poemas”; Alexandre Dáskalos com “Poesias”; António Jacinto com “Poemas”; Ernesto Lara Filho com “Picada de marimbondo”; Fernando Amaro Monteiro com “Vozes no muro”; Haydée Vale com “Pôr-do-Sol”; Horácio Caio com “Angola: os dias do desespero”; Lourenço Mendes da Conceição com “Portugueses de direito e portugueses de facto”; Manuel dos Santos Lima com “Kissanje”; Tomás Jorge com “Areal”; Viriato da Cruz com “Poemas”.
1962 – António Cardoso com “Poemas de circunstância”; Eugénio Ferreira da Silva com “Arco-íris”; Gonzaga Lambo com “Cancioneiro popular angolano: subsídios”; Henrique Guerra com “A cubata solitária”.
1963 – Américo Boavida com “Angola: cinco séculos de exploração portuguesa”; Luís Filipe Oliveira e Castro com “Anticolonialismo e Descolonização”.
1964 – Angerino de Sousa com “O laço vermelho”; Maria Eugénia Lima com “Entre a parede e o espelho: poemas”; Maria José Pereira da Silva com “Labaredas em prece”; Regina Maria de Melo e Cruz com “O Brasil visto pela cultura francesa do séc. XVIII”.
1965 – António Faria com “Introdução ao cinema angolano”; Rui Burity da Silva com “Ochandala”.
1966 – Alda Lara com “Poemas”; Jorge Macedo com “Tetembu”; Edgar Valles com “A fruticultura angolana e o comércio externo”; José Manuel Mendes com “Enquanto cresce este rio audaz”; Maria Celeste Pereira Abakaye Kounta com “Política linguística em Angola”.
1967 – Abel Augusto Bolota com “Benguela, Cidade Mãe de Cidades”; David Mestre com “Kir-Nan”; Manuel Rui com “Poesia sem notícias”.
1969 – Manuela Cerqueira com “Menina do deserto”.

Depois, já entrados na década de 70 e até à independência de Angola, outros nomes irão afirmar-se, muitos deles já perfeitamente engajados na continuação da luta anticolonialista pela via intelectual. Aqui fica a lista:
1970 – Carlos Dinis da Gama com “Laboratory studies of comminution in rock blasting”; Carlos Ervedosa com “Arqueologia angolana”; Carlos Martins de Castro Alves com “Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro: boquejo biográfico do colonizador de Moçâmedes”; Eleutério Sanches com “Tuque-tuque de batuque”; Wanda Ramos com “Nas coxas do tempo”.
1971 – António Cordeiro da Cunha com “Folhas da vida”; Honorinda Cerveira com “Kiangala”; João Abel com “Bom dia”; João Maria Vilanova com “Vinte canções para Ximinha”; José Manuel Marto com “Asas…”; Manuel C. Amor com “Na rota do Quinaxixe”.
1972 – Carlos Gouveia com “Utanha Wátua”; Ciro Gourgel com “Contos soltos”; Domingos Van-Dúnem com “Auto de Natal”; Eduardo Brazão Filho com “Cidade e sanzala”; Fragata de Morais com “Terreur en Verzet”; Maria do Carmo Marcelino com “Obra poética”; Olga Gonçalves com “Movimento”; Ruy Duarte de Carvalho com “Chão de oferta”; Samuel de Sousa com “Poesia”.
1973 – António Manuel Lopes Dias com “País inacabado”; Aristides Van-Dúnem com “A última narrativa de vovó Kiala”; Jofre Rocha com “Tempo de cicio”; Leonor Correia de Matos com “Origens do povo Chope segundo a tradição oral”; Lygia Salema com “Desterro de mim”; Mário Lopes Guerra com “A bola e a panela de comida”; Pepetela com “As aventuras de Ngunga; Severino Moreira com “Flores no charco”.
1974 – Adriano Botelho de Vasconcelos com “Voz da terra”; António Castro com “Poemas”; João Jorge Lucas com “Absolvição impossível”; Manuel J. A. Leal Gomes com “Determinação de parâmetros físicos de reservatórios”; Monteiro dos Santos com “Corpus”; Raul David com “Colonizados e colonizadores”; Rui Romano com “Poesia”; Uanhenga Xitu com “O meu discurso”.
1975 – Arlindo Barbeitos com “Angola Angolê Angolema; Celestino Soares Amaro com “O medo”; Glória Leal Gomes com “Reflexos”; Jorge Arrimar com “Ovatylongo”; Lopo do Nascimento com “Considerações breves acerca de “O Dilúvio Africano”.

Só então, com os bons ventos da independência, a pujança livre e sem amarras dos autores nascidos em Angola se revelou na sua plenitude e, até hoje, são já em grande número os novéis escritores com obras publicadas, seja no país natal, seja na diáspora.
Pelo meio, para além dos que escaparam ao crivo da nossa pesquisa, ficaram muitos autores de reconhecido mérito, homens e mulheres com obra dispersa por jornais, revistas, almanaques e publicações diversas, sem alguma vez terem visto editado algum livro seu. Para esses autores, também, a nossa homenagem.
Na sequência do que atrás ficou dito segue-se a lista de todos os Autores e Escritores naturais de Angola que conseguimos agregar desde 1642 com livros publicados. Alguns faltarão, certamente, existirão falhas e imprecisões também, sem dúvida, mas esperamos que estas contingências de pesquisas infrutíferas não firam demasiado o objectivo e o espírito deste trabalho.